Do Abismo e Outras Distâncias

Dione Veiga Vieira. Entre cá e lá, 2017. Fotografia PB.
Entre cá e lá: uma imagem que se refere simbolicamente ao nosso estar entre a terra, mar e céu: uma memória primordial e primitiva do corpo que assim se situa no mundo, traçando e dissolvendo suas fronteiras, apontando um horizonte para além do que se pode ver. Nessa paisagem marinha, o corpo quase mimético em relação à pedra e ao mesmo tempo, se assemelhando à um animal viscoso (efeito da capa plástica transparente), confunde as distâncias e a proximidade entre o real e o imaginário, entre o material e o espiritual, a presença e a ausência. Dione Veiga Vieira - março 2017.

Do Abismo e Outras Distâncias

Em um cenário social e político no qual parece cada vez mais difícil a convivência entre opiniões e crenças distintas, a internet e as redes sociais têm sido um fórum que - mais do que permitir a exposição, a difusão e o amplo debate de ideias - vêm aprofundando as distâncias entre diferentes pontos de vista.  Ao invés de ampliar suas visões de mundo através do acesso praticamente irrestrito à informação, as pessoas tendem a viver cada vez mais dentro de seus universos pessoais, ou bolhas, como chamamos comumente. À facilidade de um mero clique, laços virtuais e reais são desfeitos. Familiares deixam de se falar. Colegas de trabalho cortam relações para além das estritamente necessárias. Vizinhos passam a implicar (ainda mais) entre si.  Amizades de infância são desfeitas. Com alguns outros cliques fornecemos informações sobre preferências ideológicas à grande matrix que, se valendo de algoritmos, traça nosso perfil e passa a oferecer aquilo que nos é confortável e corrobora nossas verdades. A opinião subjetiva e individual passa a ser a verdade disponível, e não aceitamos nada além dela.

Nesse contexto, no qual ‘pós-verdade’ foi escolhida a palavra do ano de 2016 pelo dicionário Oxford, falta tolerância para com a diferença. Segundo a definição apresentada pelo dicionário, o adjetivo faz referência a ‘circunstâncias em que os fatos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que apelos emocionais e opiniões pessoais’. Os editores esclarecem: no termo, o prefixo ‘pós’ não é utilizado como referência a um acontecimento passado (como em pós-guerra), mas sim para salientar a rejeição ou irrelevância do conceito precedido. Como no caso em que notícias falaciosas são compartilhadas milhares de vezes mesmo que seus disseminadores estejam cientes de sua carga de inverdade. Para quem viraliza as supostas notícias, não importa que dados concretos e informações comprovadas atestem a não veracidade de tais declarações, apenas que sua reverberação reifique suas próprias crenças.  Uma versão de Maquiavel 3.0 para justificar os meios em função dos fins.

Para além da falta de respeito, há uma escassez generalizada de empatia. Em um mundo no qual as minorias estão cada vez mais cientes da relevância de reforçar seu lugar de fala e de garantir que suas vozes sejam amplificadas, irônica e paradoxalmente há uma surdez coletiva para a diferença se aprofundando. Tal surdez possui uma estética própria: a estética dos muros de separação, das barreiras de contenção, das fronteiras que, aos poucos, se convertem em abismos.

Refletindo a respeito dessas questões e do papel da arte em tempos tão conturbados, Do Abismo e outras distâncias celebra os cinco anos de vida, projetos e proposições da galeria Mamute. A partir de uma seleção de trabalhos - em sua grande maioria inéditos -, a mostra se propõe a lidar com a diferença, com o ruído, e a nos fazer olhar para as distâncias existentes, sejam elas realidades ínfimas, ou metáforas abissais. Trazendo obras de todos os artistas representados pela galeria, a mostra questiona os gritos e os silêncios, as tensões e os embates da vida contemporânea, propondo aproximações dialógicas entre obras de poéticas bastante distintas.

Essas aproximações aparecem na mostra calibrando as ‘outras distâncias’ presentes no título, em encontros ora delicados, ora tensos. Como uma corda que, por proximidade física, vibra junto com outra mesmo sem ter sido tocada, a ideia aqui é acionar tensões poéticas que nos permitam fazer conexões simbólicas para além do dito e do desdito. Talvez seja utópico pensar que a arte tenha capacidade para derrubar barreiras e permitir nos aproximarmos uns dos outros com menos defesas. Mas talvez ela possa, pela via do sensível, nos ajudar a reconhecer e experienciar aquilo que mal cabe em palavras, tornando o diferente menos distante.

Curadora da mostra

Em irônica alusão à Web 3.0 que, anunciada como a terceira onda da internet, projeta estruturar todo o conteúdo disponível na rede mundial de computadores dentro do conceito de ‘semântica das redes’, ou seja, conteúdos online estariam organizados de forma semântica, personalizados para cada internauta de acordo com as informações geradas a partir do seu próprio uso.



Exposição Comemorativa com os artistas da Galeria de Arte Mamute
Março/2017

Rua Caldas Júnior, 375 | Centro Histórico
Porto Alegre | Brasil


90010.260